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5.8.12

FMM Sines 2012 – Dia 7: Sábado, 28 de Julho

De onde vem esta música? De Júpiter?

Jupiter & The Okwess International, por Mário Pires

Orquestra Todos

O último dia de Sines começou no castelo com o concerto da Orquestra Todos. Uma multidão em palco munida de instrumentos bem bizarros, que pareceram surpreender até o mais experienciado festivaleiro de Sines. Foi com um som mestiço que se inaugurou o última dia de festival. A Orquestra Todos é um projecto financiado pela Câmara Municipal de Lisboa e pela Fundação Calouste Gulbenkian que surgiu em 2011, baseando-se numa outra orquestra fundada em Itália em 2002 no bairro romano de Esquilino (habitado essencialmente por imigrantes) de seu nome "Orchestra di Piazza Vittorio". Pretende, acima de tudo, uma integração dentro da comunidade, mas vai muito para alem desse carácter social. Em Sines mostraram que musicalmente são também muito valiosos. É uma fusão surpreendente dos patrimónios musicais de várias culturas, pelo que num momento estamos a ouvir o solo desenfreado de um trompete vindo de Leste e no seguinte surge uma Sanfona, uma sítara ou mesmo - pasme-se o leitor - uma caixa de percussão inédita movimentada por uma roldana (qual caixinha de música em tamanho real). Foi um concerto ajustado para um final de tarde muito agradável e que, embora tenha sido disfrutado maioritariamente por um público sentado na caruma da plateia, teve momentos altos que obrigaram a levantar o traseiro e dançar.

Socalled

Antes de ouvir Hugh Masekela - provavelmente o homem mais aguardado da noite - foi altura de rumar ao Pontal para ouvir SOCALLED, músico que vinha rotulado como "uma das aves mais raras, e por isso mais preciosas deste FMM". Senhor dos mil ofícios, ele é "Mestre de Cerimónias", pianista, mágico, DJ, entertainer, ventríloquo (!) e cantor, tendo provado todas estas artes em palco. A sua música tem claramente base no Hip-hop, com recurso a samples um pouco diferentes do habitual, pois utiliza musica tradicional judaica como o Klezmer ou ainda excertos de uma qualquer fanfarra de Leste. É um mundo neo-hebreu-urbano este que SOCALLED constroi com a sua música. Surpreende e diverte a plateia, chegando ao ponto de pedir aos "frustrated rappers" da audiência que fossem mostrar a sua arte. Para espanto de todos houve mesmo alguém que arriscou, munido de garrafão de vinho numa mão e copo na outra e foi o delírio da multidão pela forma confiante como - de braços abertos e com uma espécie de lenço/capa de super-herói pelas costas - pegou na pandeireta e ensaiou alguns ritmos, com SOCALLED em êxtase trocando rimas com o novo membro, enquanto bebericava, a espaços, a vinhaça portuguesa. Já sem o seu "frustrated rapper", ainda houve tempo para ouvir alguns temas de grande groove em que se destacou o saxofonista da banda. Já a encerrar o concerto,houve tempo para um pequeno espaço de magia ... uma folha de jornal passou de despedaçada a inteira em alguns minutos, mesmo nas barbas do público que, certamente, rumou ao castelo de sorriso na cara.

Hugh Masekela

Homem mais aguardado da noite, Masekela entrou já com a banda a debitar um jazz com sabor africano, cedendo a sua voz ao trompete e arrancando um solo que deixou os mais desprevenidos em riste. O trompete não tem segredos para Masekela. Impondo as melodias e o ritmo avassalador da música africana, foi grande na hora de cantar, dançar, disparatar com o público (algo bruto quando mandou calar alguns membros das filas dianteiras ou quando ordenou à fila da frente que não mandasse o fumo para o palco), gritar palavras de ordem contra a alienação do mundo moderno com a tecnologia ("..write this in your ipads!") e elogiar a plateia, que dançava e cantava sem parar em resposta às suas frases em língua Afrikaans ("are you sure you are not from Soweto?"). Foi uma festa imensa. Tocou os seus temas mais míticos como "Grazing in the grass", "Stimela/Coal Train" (com uma introdução feroz em defesa dos emigrantes, já habitual noutros concertos mas que ao vivo impressiona realmente quando vai buscar todas as suas forças para gritar o refrão a plenos pulmões) e - já no encore - "Bring Him Back Home" provavelmente a canção que mais pessoas conheciam. É incrível a frescura dos seus 73 anos, a sua imensa consciência política e o seu poder musical. Juntou o Jazz, o Funk, a música tradicional africana e mesmo o Afrobeat, homenageando Fela Kuti com uma versão estonteante do clássico "Lady". É um dos símbolos da África do Sul, tendo sido um privilégio para todos sentir a aura desta figura incontornável da música africana e, porque não, do século XX.

Tony Allen's "Black Series" feat. Amp Fiddler

Tony Allen, inventor do Afrobeat, homem de enorme peso no panorama da música africana e, por extensão, da mundial, é capaz de criar as expectativas mais altas em qualquer fã. A figura de Tony Allen, que ecoa na identidade da proposta que apresentou em Sines e que tinha tudo para ser, pelo menos do ponto de vista teórico, uma das mais interessantes de todo o festival, fez-nos pensar intensamente sobre o diálogo entre duas grandes escolas musicais - a de Detroit e a de Lagos. Se a escola de Lagos estava representada por Tony Allen e por alguns dos seus músicos, seria o multi-facetado e importantíssimo teclista, Amp Fiddler, a representar a escola de Detroit e a trazer uma nova alma ao projecto "Black Series". A secção de metais que os acompanharia chegaria de bem perto: da escola de artes de Sines. A dinâmica entre os músicos começou bem suave e por assim continuou durante quase todo o concerto. Teimavámos (talvez por defeito de fabrico) em antecipar momentos explosivos que jamais chegariam. As músicas sucediam-se e Tony Allen, já de idade avançada (há homens que não deviam envelhecer...), limitava-se a gerir o esforço para assegurar a continuidade dos acompanhamentos que, apesar de geniais a espaços, não passavam disso mesmo. A dinâmica era de acalmia e de controle. Que diferente está Tony Allen! Não parece o mesmo que vimos em dois grandes concertos, num passado recente: no Festival de Músicas do Mar na Póvoa do Varzim e no mítico concerto com Seun Kuti, em Sines. A vida é isto mesmo. É feita de ciclos e de renovações. Que venha o próximo (felizmente, há muitos pretendentes ao trono...).

Jupiter & Okwess International

A República Democrática do Congo é um dos países mais ricos de África. Muito para além das riquezas naturais está a riqueza cultural de um dos países que mais projectou a música africana no panorama internacional, nomeadamente nos anos sessenta e setenta, quando apareceram, na antiga república belga, alguns dos melhores músicos africanos de sempre. A essa geração de ouro, que nunca lerá esta crónica, temos a obrigação de dizer que a música congolesa continua em excelentes mãos. Jupiter e os seus músicos são a prova viva disso mesmo. Que grande concerto! Um dos melhores da XIV edição do FMM! A energia contangiante do rock e do soukous que emanava das guitarras, da linha de baixo e da percussão contagiou as várias gerações e até mesmo aquele público que não viu e ouviu o concerto (permitam-nos um pequeno devaneio). Todos se renderam, não só a Jupiter, mas também aos grandes músicos que o rodeavam (não nos sai da cabeça o baixista que, para além de um quase absoluto domínio do instrumento, tinha uma excelente voz). Cenicamente exemplar, articulado de forma perfeita com o tempo de entrada do fogo de artifício, resta-nos vergar perante este concerto. Um final de castelo perfeito! Perfeito!

Lirinha

Lirinha é muito mais do que um músico. É um excelente conversador e declamador, que tivémos a sorte de ouvir, à conversa, no Centro de Artes de Sines. O que disse ao público foi uma lição de história da música (e não só) do estado de Pernambuco e da música brasileira em geral. Foi com todas as antenas (e mais algumas) que absorvemos a sua sabedoria. Embalados por essa conversa, chegámos ao concerto com as expectativas em alta. Comprova-se a sábia teoria de que é mais fácil gostar do que sabemos contextualizar. O concerto, de base poética quase exemplar - perde qualidade quando se afasta das origens tradicionais pernambucas e se aproxima da decadência urbana -, roçou a genialidade, mas, estranhamente, também a banalidade. O que marcou essa oscilação foi a forma como a guitarra e o sintetizador eram usados: incríveis na abordagem circular e fracos quando se tratava de experimentar. A performance de Lirinha, adequadadíssima ao tipo de público e à hora avançada do concerto, marcou pontos. O ex-vocalista de Cordel do Fogo Encantado sabe conquistar o público e atacar um palco. Pena que tivesse havido tantas variações ...

Texto de José Bernardo Monteiro e José Manuel Amorim

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