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29.7.12

FMM Sines, dia 2 (20 de Julho)

Morninho, morninho!


Al Madar, por Mário Pires

A RU( chega ao FMM só no segundo dia de festival e depara-se com um castelo relativamente despido de público. É certo que a ideia do primeiro fim-de-semana não será ter o recinto a abarrotar de gente, que a ausência do palco gratuito da praia afasta muito público destes primeiros dias e que há a concorrência do Milhões de Festa, mas parece que, nas mesmas condições, a afluência era maior no ano passado.

A marca portuguesa do dia surgiu ao final da tarde (uma regra desta edição do festival), com os Osso Vaidoso, o novo projecto conjunto de Ana Deus e Alexandre Soares dos Três Tristes Tigres (TTT). Apenas com guitarra e voz, explorando o ruído das cordas e a poesia de nomes como Regina Guimarães ou valter hugo mãe, soou a concerto descontextualizado para o espaço e para um final de tarde a exigir outro calor. É tudo muito minimal e exige atenção nos detalhes e na minúcia das palavras, o que torna este som apropriado para um espaço mais pequeno e fechado. Com melhoria nos temas com guitarra acústica (com um outro balanço) e com passagens pelo repertório dos TTT, foi um concerto frio, tanto quanto o gerado pelo vento de final de tarde no litoral alentejano.

O primeiro round do cruzamento oriente-ocidente teve um resultado agradável. Al-Madar é a fusão entre o multi-instrumentista libanês Bassam Saba (desde o alaúde até à flauta transversal) e um conjunto de músicos americanos com referências cosmopolitas muito diversas, desde um jazz mais emotivo e menos técnico até um som mais abrasivo e descomprometido, como o demonstram os Secret Chiefs 3, grupo que integra dois elementos desta orquestra e que deu um concerto bem caricato no FMM 2011. Com um repertório eclético guiado pelo virtuosismo de Saba, baixo e bateria lentos e quentinhos e momentos mais ritmados a cargo do trompete, cumpriu com distinção o papel de concerto de início de noite.

Depois da calma de Al-Madar, coube aos L'Enfance Rouge o esforço de incendiar as hostes com um rock cheio de distorção, contornos noisy e pequenos resquícios étnicos orientais. Pena que não da melhor forma... não ficámos convencidos com o concerto do projecto há 3 anos em Sines ("a suposta fusão aparenta ser nesta performance dos L'Enfance Rouge um profundo acto falhado", dissemos na altura)  e a opinião manteve-se, embora de forma um pouco diferente. Os aspectos étnicos, que praticamente não identificámos em 2009, têm agora uma incidência maior por via da voz do grande músico tunisino Lotfi Bouchnak. As vocalizações são magníficas, herdeiras de um registo oriental recheado de espiritualidade, mas ampliam ainda mais o divórcio com a componente instrumental. Apetece por vezes retirar electricidade ao som de fundo ou desligar mesmo alguns instrumentos. Assim, soa a desperdício.

Seguiu-se o projecto Frigg e, com ele, uma fusão entre linguagens irlandesas, bluegrass e uma folk nórdica pouco detectável. Os músicos são simpáticos e fazem um esforço consistente para empolgar a plateia, mas, numa altura da noite já avançada, a combinação acelerada dos vários violinos e dos restantes instrumentos de cordas acaba por se tornar algo monocórdica e esmorecer algum público menos devoto a este registo. Não há nada de errado nos músicos finlandeses e ouve-se com agrado a sua música, mas falta aqui um pormenor, uma desconstrução ou um instrumento capaz de criar abalos rítmicos: seja alguma percussão, um metal ou uma gaita, que era suposto ter sido interpretada em palco, mas que não chegou a comparecer e a dar o impulso sónico que tanto se desejava.

Com uma tuba a fazer as vezes de um baixo, num ritmo quase sempre infernal alimentado por dois trompetes e um trombone seriamente afiados, Los Mezcaleros de La Sierra e Clorofila (Jorge Verdin, natural de Tijuana) trouxeram ao FMM uma mistura contagiante de música electrónica com os ritmos e melodias tradicionais do Norte do México, numa fusão recente apelidada de "Nortec". Apoiados por uma projecção de imagens e frases de contestação - por exemplo ao narcotráfico - estes mexicanos puseram o castelo de Sines a dançar freneticamente. Estava já tudo embalado pelos ritmos de Frigg (seja em que sentido for), mas foi com esta mistura que se inventaram novas danças para novos sons. Uma noite claramente em crescendo, num FMM ainda morno, mas com expectativas de aquecer bastante nos próximos dias.

Texto: João Torgal e José Amorim

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