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4.7.12

IX Edição do festival MED Loulé : Este festival (também) é para velhos…


Loulé encheu a casa durante a nona edição do MED. A beleza da cidade e do recinto onde se realiza o festival merece, por si só, que a ele nos desloquemos. Se se acrescentar a isso bastante variedade musical, um grande número de palcos e diversidade de oferta (não é apenas de música que trata o festival), estamos perante um produto bem pensado e concretizado. Infelizmente, por culpa da crise, a janela espaço-tempo foi bem mais curta : apenas dois dias. Há que louvar a inteligência da organização que decidiu cortar na duração, mas não na qualidade...

1º dia - 29 de Junho - música ousada.

Que relação possível existe entre bandas como os PAUS e Throes + The Shine e as “músicas do mundo”? A resposta é simples: a percussão explosiva, que atravessa a música africana e a que foi levada para outras partes do mundo pelos escravos (sobretudo as tribos Yoruba) que dali saíram e que é também comum às duas bandas portuguesas. Esperemos que a força das batidas contagiantes de PAUS (21:45, Palco Cerca) e, mais tarde (23:30, Palco Castelo), do “Rockuduro” dos Throes + The Shine tenha apenas sido um aperitivo para o público jovem que tão ferozmente acorreu aos dois palcos. Seria a prova que o Festival MED teria aberto horizontes musicais …

Cheikh Lô (22:45, Palco da Matriz) regressou a Portugal para um concerto em tudo parecido com o que deu na edição do ano passado do FMM de Sines. Quando dava a entender que o concerto ia seguir uma faceta mais animada e festiva, aparentemente mais adequada à música que habitualmente toca, seguiam-se longas quebras rítmicas! Quase parecia propositado para adormecer as crianças que por ali andavam ao colo dos pais. A força da mistura das referências musicais que fazem parte da sua música parece anular-se ao vivo, talvez porque se espere sempre por algo que não chega. Por mais que tente, ainda não consegui perceber qual é a noção de espectáculo do senegalês…

A Curva da Cintura, projecto musical saído da cabeça de Arnaldo Antunes (ex-tribalistas) e Edgar Scandurra (ex-Ira!), faria a sua estreia mundial no palco da Cerca do MED, às 00:00. Toumani Diabaté, uns dos maiores músicos africanos vivos, que tanto fez pela kora, aceitou (não sei em que condições…) participar num projecto que tem tanto de inesperado como de pouco trabalhado. A genialidade do mestre maliano atenua um pouco a ideia que transparece em disco e que se confirma ao vivo: não há uma linguagem base minimamente comum que permita que a fusão possa fluir. Os músicos envolvidos no projecto têm duas hipóteses: ou criam essa linguagem (o que ainda não aconteceu, talvez porque o projecto tenha pouco tempo de vida), ou partem para a escolha de novas bases musicais que lhes permita comunicar de forma mais fluida. Em palco, houve duelos constantes entre a faceta rock de pai e filho Scandurra (pai na guitarra modelada, filho no baixo) e de pai e filho Diabaté (os dois na kora, sendo que Toumani interpreta um repertório mais tradicional e Sidiki - herdou o nome do avô-, um repertório mais moderno). A voz de Arnalado Antunes - grave, límpida, com grande alcance - nada acrescenta à base musical, independentemente do momento: quer esteja a tender mais para o lado brasileiro ou mais para o africano. A percussão da poderosa baterista lá ia equilibrando as tendências. Era ela a única capaz de jogar dos dois lados do campo: ora em oscilações rock, ora em acalmias de base africana. Este bolo musical ainda não está pronto para ser deglutido … o quilo ainda não é quimo. Alguma vez será? Só o tempo poderá dizer…


Boubacar Traoré, retirado de calabash.typepad.com

2º dia - 30 de Junho - música sólida.

A noite iniciou-se com o experimentalismo folk da música de Norberto Lobo (21:30, Palco do Castelo). O músico português, que teve a aceitação global dos críticos portugueses de A a Z, não sabe fazer nada mal. Enquanto Norberto tocava, subia a palco “A Caruma” (21:45, Palco Cerca), (mais) uma daquelas bandas portuguesas formada para ser especificamente colocada na prateleira “world music”. Apesar de competentes no que fazem (sobretudo ao vivo), a amálgama final soa a uma falsidade pop-étnico-qualquer coisa. A escolha de You can’t Win Charlie Brown (Palco Castelo, 23:30) para um festival de matriz “Músicas do Mundo” é dúbia. Mas podemos sempre pensar que é a bem da variedade…

Para os amantes do reggae, há poucas formas melhores de celebrar os cinquenta anos de independência da Jamaica do que juntar grandes músicos da pequena ilha das caraíbas e pô-los a navegar, pelo mundo, ao sabor do vento da filosofia Rastafari: Ernest Ranglin – genial guitarrista -, Sly e Robbie – lendários músicos e produtores/duo dinâmico do baixo e bateria - e Tyrone Downie - virtuoso pianista e teclista de tantas bandas importantes do género- foram os primeiros (mas não os únicos) a provar que a experiência pode ser uma arma mais poderosa do que dez toneladas de sangue na guelra. Será que foi Jah (Deus), que desceu dos céus e ofereceu a calma, segurança e tranquilidade rítmica ao concerto? Os mais espirituais dirão que é possível que sim… os mais terrenos, que a experiência e avançada idade dos músicos fez a diferença. Afinal, são os homens que fazem a música.

Foi muito engraçado perceber que dois concertos tão diferentes: o de Jamaican Legends e o de Boubacar Traoré, podem ter pontes comuns. A mais óbvia e que aqui interessa construir é a da experiência. Foi um grande prazer poder ouvir - noutras ocasiões tínhamos falhado os concertos do músico que é considerado, erradamente, como o maior bluesman vivo doMali (é muito mais do que isso!) - Boubacar Traoré, quer pelo peso histórico (Boubacar foi um importante escritor de canções que, depois de um período de reconhecimento na luta pela independência do Mali caiu no esquecimento e voltou à ribalta nos anos noventa), quer pela qualidade da música, que vai muito para além do blues: é impossível ouvi-lo e não beber goladas da água da vida da música da África Ocidental. O concerto de Boubacar foi o momento mais alto de todo o festival: pela coerência e qualidade da música, pela atmosfesta de intimidade (é mesmo possível fazer uma festa em intimidade, num palco…) e pelas constantes travessias entre o delta do Missisipi e o delta do Níger. Foram os arranjos que asseguraram a estabilidade das viagens! Vida longa ao senhor da harmónica, que levou o barco em segurança para os Estados Unidos e ao jovem do tambor que o devolveu, tranquilamente, ao Mali.

Parabéns!

José Bernardo Monteiro

1 Comentários:

Às 6/7/12 7:52 da manhã , Blogger Unknown disse...

excelente critica de nosso concerto . esteja certo que estamos a afinar as tendencias . 2 dias depois, em londres ,estavamos muito mais equilibrados.
Um abraço e muito obrigado

edgard

 

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