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9.12.10

Herbie Hancock, Campo Pequeno, 7 de Dezembro


Na flor dos seus 70 anos de idade e com uma frescura física invejável, passou por Lisboa, na última 3ª feira, a grande lenda do jazz, Herbie Hancock. Num percurso com derivações por outras áreas sonoras, nomeadamente pelo funk, o músico veio ao Campo Pequeno apresentar o seu último trabalho, Imagine. Em memória do mítico tema pacifista de John Lennon, o álbum conta com convidados muito diversos, desde grandes nomes da world como Konono nº1, Toumani Diabaté ou os Chieftains, até aos terrenos da pop descartável, onde se encontram Pink ou James Morrison.

Herbie Hancock e a sua banda entraram em palco com uma tema marcado por um improviso jazz muito técnico, um mau prenúncio para os pouco apreciadores de free jazz e derivados. De seguida, iniciou uma longa comunicação ao público, em que apresentou os músicos que o acompanham na digressão (segundo o próprio, meio perigosos e imprevisíveis), destacou a mensagem de Imagine em torno da paz, da comunhão e da partilha na era da globalização e referiu que os inúmeros convidados que o acompanham no disco não iriam estar naturalmente em palco (tecendo particulares elogios ao minimalismo percussionista dos Konono nº1 e à grande diva maliana Oumou Sangare), sendo as vozes substituídas e pelos músicos da sua banda e por Christina Train, com um timbre folky, algures entre Cat Power (não tão quente), Janis Joplin (não tão potente) ou Norah Jones (não tão melosa). Foi precisamente esta cantora da Georgia que interpretou de seguida a cover de “Imagine”, num início apenas com voz e piano e com uma linha melódica completamente adulterada, antes de entrar o resto da banda e a voz gravada de Oumou Sangaré.

Seguiu-se o lado mais funky da obra de Hancock, com o longuíssimo “Watermelon”, muito marcado pela cadência do teclado-guitarra do músico e pelas suas autênticas desgarradas, primeiro com o baixista e depois com o guitarrista, e com a versão de “Exodus”, com as vocalizações arrastadas do baixista a fazer lembrar as vozes tuaregues (não é por acaso que, em disco, o tema é interpretado pelos Tinariwen), antes da euforia do refrão. Em absoluto contraste, teve lugar, pouco depois, um extensíssimo medley jazz (de cerca de meia hora), que começou com os músicos todos em palco, passou por um longo solo de piano, teve direito a uns breves momentos de violino e terminou com a banda de novo em palco, com o grande clássico de Hancock, “Cantaloupe Island”. Este foi alias um concerto de contrastes, alternando um lado jazz mais acomodado, direccionado para um público de “casino” pouco exigente, grandes momentos de virtuosismo instrumental, mas cuja expressividade é sempre uma incógnita e de que se torna fácil “desligar” se não se for fã do género, cadência funk irresistível e alguns pormenores surpreendentes e muito interessantes, como os jogos vocais em “Don’t Give Up”, no meio de uma certa estrutura épica algo duvidosa, ou o momento vocal sem amplificação do teclista, em "Change is Gonna Come".

Na parte final, altura para o elogio aos grandes músicos irlandeses Chieftains (co-autores, juntamente com Ry Cooder e diversos músicos mexicanos, de San Patricio, um dos grandes discos deste ano), a propósito do tema que partilham no disco, o grande clássico de Bob Dylan, “The Times They Are A Changing”. Pretexto para mais uma mensagem de apelo à mudança e a um sentido humanista, a que se seguiu a interpretação do tema, que incluiu violino e a recriação, através do órgão, dos sopros tradicionais irlandeses (tal como as anteriores, mais uma versão completamente transfigurada em relação ao original). Pouco depois, a banda abandonava o palco, recebendo uma grande ovação de pé e regressando para um encore com mais um forte momento de groove funk em “Chameleon”, fechando duas horas de espectáculo com a banda a dançar ao som de um pulsante baixo sintetizado.

Tendo havido momentos de grande contraste e como acompanho pouco os territórios do jazz, tenho dificuldade em fazer um balanço do concerto, mesmo tendo em atenção que este se expandiu para outras áreas musicais. Talvez a resposta esteja algures entre o chato e insosso e o inspirado e cativante. Ou, como discutia um casal por quem passei à saída, entre a música de elevador (bem longe) e o talento enorme de grandes músicos.

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